Nas últimas décadas tornaram-se cada vez mais pronunciados os acentos que a Igreja confere à Sagrada Escritura como poderoso meio de evangelização. Nas celebrações, nos encontros de caráter religioso ou pastoral, nos eventos civis nos quais é requerida a presença da Igreja, lá está o livro sagrado conferindo unidade de sentido ao que se celebra ou se vivencia. Falamos aqui do fenômeno da Palavra na vida da Igreja. Foi assim desde os primeiros encontros de Jesus com seus discípulos. Na realidade, para uma Igreja que pretende de seus filhos a acolham com consciência de discípulos e com fidelidade criativa os apelos da Palavra do Senhor, afigura-se interessante uma aproximação atenta às formas originárias mediante as quais os evangelhos apresentam as respostas dos primeiros discípulos à palavra que Jesus lhes dirigia. O falar do Senhor suscitou neles decisões, propôs-lhes questionamentos, reclamou aprofundamentos, desafiou-os a compromissos. Começaram por “ouvir” a Palavra, deixaram-se ensinar e modelar por ela, e isso os qualificou a proclamá-La.
Quando Jesus “chamava” os discípulos, suas palavras desencadeavam neles alguma forma de mudança no destino de suas vidas ou em suas atitudes. Não se tratava de conceitos, nem de teorizações, tampouco de convencimentos discursivos. Era a sua pessoa ou o seu modo de ser que, ao serem pronunciados, interpelavam decididamente aqueles seguidores mais diretos. Basta um breve olhar aos textos para perceber. Tanto Mc 1,18 quanto Mt 4,20.22 salientam a reação pronta daqueles escolhidos à palavra que o Senhor lhes dirigia. Barcas, redes, funcionários, pai, tudo recebeu um novo lugar em suas vidas ante a proeminência do olhar e da Palavra de Jesus. “Caminhando à beira do mar da Galiléia..., Jesus viu... e lhes ‘diz’: segui-me... E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram” (Mt 4,19.22). O evangelista destaca o caráter imediato da resposta. Por duas vezes “eles, imediatamente, seguiram-no”. Por sua vez, o evangelho de Marcos evidencia também a prontidão do Senhor em pronunciar sua palavra: “Imediatamente Jesus os chamou...” (Mc 1,20).
Alguns elementos muito significativos merecem atenção: diversamente do que era usual em seu tempo, é Jesus quem, por primeiro, lança um olhar e pronuncia sua palavra. Ademais, a julgar pela inteireza dos evangelhos, não existe discipulado sem que o Senhor tenha dirigido sua palavra e a mesma tenha encontrado resposta. A relação com a palavra de Jesus matiza, qualifica e define fundamentalmente o discipulado. Também há de se ter bem presente que a reação daqueles primeiros, mas também de outros como Levi (Mc 2,14) e Zaqueu (Lc 19,5-6) não se liga a um sistema de pensamento, ou engajamento a algum projeto de teor triunfalista. Era a pessoa de Jesus que era pronunciada no seu convite: “vinde após mim”. Ainda outro dado é digno de notação: em Mt 4,19 Jesus “diz” a Pedro e André. A forma verbal no presente não é apenas mera questão de estilo. Há nela uma valência teológica, sugerindo que a palavra/convite de Jesus tem valor permanente, cujo alcance chega até o leitor do evangelho em qualquer tempo.
Também Lucas, seguindo outra tradição, confere grande ênfase à Palavra de Jesus dirigida a Pedro e a resposta deste: “Mestre, trabalhamos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, pela tua palavra, lançarei as redes” (Lc 5,5). Eles, pescadores, já tinham encerrado uma noite de trabalho. Tinham fatigado em vão, pois nada pescaram justamente no tempo noturno, o mais propício para a atividade. Os resultados foram frustrantes e a ordem de Jesus afigurava-se estranha. Em termos práticos, para responder positivamente a Jesus, Pedro deveria desconsiderar todo o seu conhecimento no ofício de pescar, incluindo até mesmo a reputação, para apoiar-se unicamente na palavra do Mestre. E confiando somente na potência da palavra do Senhor, porque era a pessoa de Jesus a pronunciá-la, obedeceu. Foi o seu primeiro ato de fé nEle. Ao aderir àquela “palavra”, ele reconheceu quem era Jesus (“Senhor”, v. 8), quem era ele (“pecador”, v. 8), e qual seria o seu futuro (“pescador de homens”, v. 10).
Igualmente no quarto evangelho o encontro com Jesus mediante a palavra se torna uma questão intrínseca ao discipulado. Jesus, a “Palavra que se tornou carne”, por indicação de João Batista, é seguido pelos primeiros discípulos. “Jesus voltou-se para traz, e vendo que eles o seguiam, lhes ‘diz”: ‘Que procurais’”(Jo 1,38). Também aqui é a palavra de Jesus a construir as relações. A busca não alcança seu objetivo sem a iniciativa dEle. Também neste caso o evangelista prefere o verbo ao presente (Jesus lhes “diz”). A pergunta de Jesus é, portanto, válida para os homens de qualquer tempo. Na realidade, Ele indaga sobre os objetivos daqueles que o seguem, sobre o que esperam encontrar. E convida-os a experimentar a convivência com Ele (“vinde e vede”). Eles são instados a “ir e ver”. Qualquer relação com Ele não pode se basear em informações; depende fundamentalmente de convivência e de comunhão, de encontro pessoal. “Eles permaneceram com Ele aquele dia”. Foi o princípio de uma nova história.
Que palavras ecoadas outrora na Galiléia, que ensejaram encontros com a pessoa de Jesus tenham ressonância nos ouvidos e corações dos católicos do nosso sudoeste. Que a Leitura Orante da Escritura Sagrada nos mova a encontros com a pessoa de Jesus.
Dom José Antonio Peruzzo

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