Dom José Antonio Peruzzo
Para o leitor que não teve maiores oportunidades de estudos bíblicos ou que não é muito familiarizado com textos teológicos ou filosóficos, ao achegar-se do vocábulo "discípulo", provavelmente aflorará à sua mente o sentido de aprendiz, ou seguidor, ou também de alguém devotado a um ideal, a uma causa, a um partido, ou ainda a um herói. A interpretação não é errônea, mas parece indicar mais um processo psicológico e/ou intelectual. Todavia, quando se trata de experiência de fé, há que se explicitar que o "discipulado" comporta ainda outros aspectos mais empenhativos, mais envolventes e totalizantes do que adesão ideológica ou doutrinária a princípios ou pessoas.
Dado que o episcopado latino-americano, reunido em Aparecida, conferiu grande destaque à temática do discipulado, apresentando-o como importante chave para a Igreja interpretar a si mesma, justifica-se, então, que nos deixemos ensinar pelas experiências fundantes de discipulado, que nos legam os evangelhos. O Ev. de Mateus pode ser nosso referencial. Ao seu pensamento integra-se muito bem a palavra de Lucas e de Marcos quando tratam do mesmo assunto.
Os evangelistas são unânimes em apresentar os discípulos como o grupo dos que, com intimidade, participaram dos caminhos, das palavras e dos eventos de Jesus. Eles o viram, ouviram-no e por Ele foram ensinados. É evidente que já por estas indicações o processo de "tornar-se discípulo" comporta relações de amizade, de partilha, de reciprocidade com a pessoa de Jesus Cristo. Todavia, um olhar mais atento para os evangelhos permite-nos ver que o discipulado comporta um duplo dinamismo: por um lado requer adesão à pessoa de Jesus. Por outro, há que romper com certos estilos de vida que atenderiam ao nosso pendor egoísta e/ou individualista.
O verbo "seguir" é um dos preferidos pelos evangelistas para ilustrar que os discípulos aderiam a Jesus. Pedro, André, Tiago, João, deixaram barco, redes e familiares para segui-lo (Mt 4,18-22). Também o cobrador de impostos, chamado Mateus, fez o mesmo (Mt 9,9). Ainda outros o fizeram (Mt 8,18-22). Não se tratava apenas de "ir atrás" de Jesus. Era adesão à pessoa de Jesus, aos seus pensamentos, ao seu modo de entender Deus, o homem, a existência e a liberdade. E, em vista das escolhas de Jesus, configurar a própria vida.
À primeira vista não se afigura tão difícil "tornar-se discípulo". Parecem bastar as atitudes religiosas. Mas os evangelistas são explícitos em evidenciar o elevado grau de rupturas pessoais para que o seguidor seja realmente discípulo. Para além de religiosidade, há que integrar na própria existência as autênticas experiências de fé. Estas são feitas também de renúncias, e quantas e quão radicais!
Para compreender isso acompanhemos o evangelista Mateus: tudo ia bem no seguimento de Pedro a Jesus até que se apresentou o tema da cruz. Seguir Jesus exige ter "os pensamentos de Deus, não os dos homens" (Mt 16,23). É preciso desfazer-se de vaidades (18,1), Mais do que perdoar muitas vezes, é preciso fazê-lo sempre (18,21-22.35). Há que ter muito respeito à sexualidade e fidelidade matrimonial (19,1-9); com quem não tem relevância social cabe afetuosa e operativa solidariedade (19,13-15). O apego a riquezas põe a perder tudo (19,16-26). O afã por superioridade e poder também ameaça a identidade do discípulo (20,20-23).
Se o leitor ler as citações acima diretamente da sua Bíblia, perceberá o nível de dificuldade e despojamento solicitados de quem quer ser discípulo de Jesus. Mas também reconhecerá o elevado senso de liberdade ensejado pelas experiências de fé. Quem subordina as próprias escolhas àquelas de Jesus Cristo, experimenta o sentido de liberdade de uma maneira possível somente para quem faz da própria vida um dom. O discípulo faz crescer o outro, mais que a si mesmo. Por isso é soberano sobre todos os impulsos egoístas. Muitos cristãos mostraram que até mesmo ante a morte o discípulo é livre. Sim, pois que ele não pertence mais a si mesmo. Sua vida é para aqueles a quem ama. Ele pertence aos outros.

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