A pergunta se afigura de resposta simples, quase evidente. Deus é o absoluto, o onipotente, a potência todo-poderosa ante a qual todas as outras realidades e forças se submetem ou são submetidas. O dinheiro é uma mediação indispensável para todas as relações materiais de troca. Por si só não são realidades que se excluem. Alguém poderia responder que a questão primeira, Deus, ficaria para o âmbito da fé e da religiosidade. A outra seria uma questão técnica, subordinada às diferentes teorias e sistemas.
Esta resposta até bastaria se tanto Deus quanto o dinheiro não fossem realidade profundamente vinculadas à liberdade e à interioridade humana. Com dinheiro é possível exercer a fraternidade, é possível buscar a justiça; ele pode ser um precioso meio de solidariedade; com ele se pode conferir valor material ao trabalho e às conquistas humanas; ele é, enfim, um meio de expressão e remuneração do que cada um pode merecer. Mas com ele também se domina, acumula-se, com ele se tiraniza, se corrompe, criam-se inimizades, com ele se pode também premiar a maldade e a injustiça. Por causa dele agride-se o meio ambiente, comprometem-se as relações interpessoais; ele é dos motivos básicos da violência que campeia por toda a parte. Todavia, o dinheiro não é mau em si mesmo. Mas quem o tem ou dele se apropria pode direcioná-lo a muitas maldades. Depende do que prevalece no coração de quem dispõe do dinheiro. Ou de quem luta por tê-lo.
Infelizmente, também o nome de Deus é, com frequência, evocado para justificar tiranias, para corromper, para falar indevidamente de justiça, para ocultar a verdade..., até para acumular. A problemática é antiga. Também Jesus se deparou com ela. Ele foi procurado por discípulos dos fariseus e dos herodianos. Suas intenções eram ardilosas. Introduziram a pergunta com o seguinte linguajar: “Mestre, sabemos que és verdadeiro... que ensinas o caminho de Deus... que não consideras um homem pelas aparências” (Mt 22, 16-17). A pedido de Jesus, mostraram-lhe uma moeda. Ela continha a imagem de César. Verdade (“verdadeiro”), justiça (“não julgas pelas aparências”), Deus (“caminhos de Deus”), dinheiro (“moeda”), poder (“Cesar”) foram enredados em um único projeto maldoso. A resposta foi lapidar: quem quer poder entenda-se com César; quem quer o encontro com Deus despoje-se de tudo o que distancia dEle. Depende de quem ocupa o centro no coração de cada pessoa. Se Deus for o centro, o dinheiro tem um sentido. Se esta centralidade foi cedida ao dinheiro, se se vive para ele, certamente Deus será um outro, que tem pouca misericórdia e pouco ama.
Entre muitos outros este é um dos temas que nos interpela seriamente a Campanha da Fraternidade. O tema versa sobre a Fraternidade e a Economia. O lema inspirador é a frase de uma clareza palmar de Jesus: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,21). A força do questionamento, embora se afigure até simples, é suficiente para reflexões que alcançam o centro das nossas escolhas. Na vida e no ritmo em que vivemos, qual é a grande causa que quotidianamente empenha os nossos melhores esforços? Quando tudo se torna mercadoria e a grande compensação pela troca é quase exclusivamente a moeda esvai-se o sentido de gratuidade e de partilha. Valores próprios da atividade econômica como a competição, o lucro, a produtividade, que em si mesmos não são negativos, quando exacerbados por ambições desfiguram o coração humano e as relações sociais e interpessoais. Quando o dinheiro (leia-se lucro) é a prioridade, tanto Deus quanto a pessoa, a um só tempo, perdem seu rosto e sua grandeza. E quando Deus perde a centralidade, alguma outra “coisa” é colocada em seu lugar. E o grande ídolo, expresso em símbolo de cifrão, ameaça unificar quase todas as linguagens.
Esta Campanha da Fraternidade, este período quaresmal, se bem compreendido torna-se um tempo primoroso para uma reflexão honesta e sagaz sobre o significado que conferimos ao dinheiro. Quem o tem é chamado a indagar-se sobre os valores éticos mediante os quais o conquistou. Quem não o tem em acúmulo é chamado a uma análise veraz e sincera acerca da natureza dos anseios por ter mais. Afinal, quem não se deixa iluminar por critérios de fé buscará outras luzes. E quem pretende chamar de desenvolvimento o capital acumulado ignora que no atual ordenamento econômico ocidental, também o “desenvolvimento desenvolve a desigualdade” (Eduardo Galeano).
D. José Antonio Peruzzo

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.