Diocese de Palmas e Francisco Beltrão

Carta do Bispo

Natal: festejar ou celebrar?

Se o "Sr. Mercado" fosse um indivíduo, que tivesse personalidade, e a ele fossem dirigidas algumas indagações sobre a sua interpretação acerca do Natal, do Ano Novo, da Páscoa, do dia das Mães, do dia dos Namorados, do dia dos Pais, do dia da Criança, e outras expressões dos nossos afetos culturais, certamente ficaríamos muito perplexos ante a frieza, pobreza e dureza de suas percepções e visões. E certamente teríamos palavras críticas porque ofendidos com tanta aleivosia, nosso falar seria veemente. Sim, porque o "Sr. Mercado" seria loquaz e entusiasta em projetar a tais eventos termos como vendas, propaganda, aquecimento da demanda, crescimento do consumo, produtividade, percentuais, etc. Para ele a festa conta, a celebração "desconta". O resultado final no coração humano é que perde-se a capacidade de contemplar a beleza singela do que se festeja. Chesterton, um admirável filósofo inglês, já comentou que "estamos perecendo não por falta de maravilhas, mas por falta de capacidade de maravilhar-nos".

Parece que em tempos tão pragmáticos e materialistas, cuja atmosfera cultural é prisioneira de formas rebuscadas de egoísmo, o grande caminho de quem quer crer é a contemplação. Por meio dela será possível redescobrir o sentido já antigo, mas também sempre novo do nascimento de Jesus Cristo. Caro leitor, observou você quanto neste final de ano escassearam ainda mais as menções do "aniversariante" nestes dias natalinos? Os cartões de felicitação falam de "boas festas", as cidades estão iluminadas com evocações do Papai Noel, as vitrines estão repletas de produtos muito atraentes... Como é grande o contraste com as experiências de Nazaré, da viagem a Belém, do nascimento, dos carinhos da Mãe ao seu pequeno "Deus-criança"!

"Contemplar" exige disposições interiores para discordar do "Sr. Mercado". É preciso dispor de uma saudável imaginação. É necessário criar momentos de quietude, fechar os olhos, e em um apreciável silêncio, criar distância dos produtos, do cardápio da ceia, da aquisição dos presentes, das ofertas das redes de lojas, das mensagens a enviar. Com a imaginação se poderia "ver" o casal partindo de Nazaré em direção a Belém. São aproximadamente 125 Km. E a jovem não está distante dos dias do parto. O percurso será em uma cavalgadura. O que aquela Mãe diria do Natal? A fé lhe ajudou a confiar. E neste Natal poderíamos nos deixar ensinar por ela sobre o que é ter fé. Sabemos como foram os fatos de Belém. Mas, com os olhos contemplativos poderíamos "ver" o jovem casal angustiado à procura de um lugar. O nascimento está prestes a acontecer. O que aquela Mãe teria falado a seu Deus? Ela poderia nos ensinar a ter esperanças em todas as situações?

Poderíamos ainda dar mais um passo em nosso breve esforço contemplativo. E nossa imaginação alcançaria o campo no qual os pastores guardavam seus rebanhos. O evangelho de Lc 2,8-14 oferece subsídios à nossa força imaginativa. A noite, o frio, o silêncio noturno, tudo se torna palco para a mensagem: "Não temais; eis que vos anuncio uma boa notícia, que será alegria para todo o povo: hoje nasceu para vós um Salvador... Glória a Deus nas alturas e paz aos homens". Não houve propagandas, não havia consumos, ninguém falou em resultados e em novos lançamentos ou outros termos de domínio do "Sr. Mercado". Todavia, entre muitos elementos a considerar, parece-me que os pastores, se nos falassem hoje, acentuariam dois temas: a alegria e a paz. Fora esta a sua experiência primeira na ocasião do seu Natal. Eles encontraram a alegria, algo muito distinto de saciedade; tornaram-se repletos de paz, o que em muito se distingue de vazio ou fastio.

Pois bem, estou seguro que se os personagens do Natal do Senhor Jesus nos encontrassem hoje, e com eles falássemos, não reprovariam a atmosfera festiva que envolve o dia 25 de dezembro. Mas teriam muito a nos dizer acerca da falta de alegria e de paz com que festejamos a data. Há consumo, mas insuficiente interioridade. Por isso mesmo incorremos no erro grave de festejar muito, mas celebrar pouco. Em consequência, nossa sensibilidade corre o risco de se tornar entorpecida e obscurecida. Quem perde a capacidade de maravilhar-se com as coisas simples terá motivos para duvidar até mesmo dos prodígios de Deus. Quem celebra o Natal do Senhor Jesus irradia a alegria e a paz experimentadas em Belém. Quem apenas festeja, certamente consumirá. E provavelmente engordará. Neste caso não terá sido do um bom Natal.

Dom José Antonio Peruzzo - Bispo Diocesano

login

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.